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RELAÇÕES DE PODER DISFARÇADAS DE AMOR: A CONSTRUÇÃO DAS NARRATIVAS DE AMOR MARCADAS PELA VIOLÊNCIA


Apresentado na: I Jornada Nacional de Comunicação Política e Democracia, o III Congresso de Comunicação do Campo das Vertentes e a XII Semana Acadêmica de Jornalismo.

A concepção do amor romântico, historicamente associada à ideia de completude e destino, constitui um dos eixos mais persistentes da cultura ocidental e vem sendo cada vez mais questionada pelas ciências humanas. O imaginário da “metade perdida”, no qual a realização afetiva depende da união com o outro, surge do mito do andrógino, narrado por Aristófanes em O Banquete, de Platão (2011). Segundo a narrativa, os seres humanos eram originalmente inteiros, até serem divididos por Zeus, passando, desde então, a buscar incessantemente a parte que lhes falta. Essa busca pela unidade, simbolizada por Eros, transformou-se, na modernidade, no ideal da “alma gêmea”, no qual a felicidade é condicionada à completude afetiva proporcionada pela relação amorosa (Molina, 2017).

No entanto, a transposição desse mito para a vida contemporânea consolidou uma concepção de amor baseada na dependência emocional e na idealização do outro, ação que, segundo hooks (2021), produz relações frágeis e expectativas inalcançáveis. Em vez de representar um encontro entre sujeitos autônomos, o amor romântico é frequentemente representado como um projeto de fusão, no qual o indivíduo abre mão da própria inteireza em nome da completude.

A cultura midiática contemporânea reforça essas narrativas, associando a felicidade e a validação social ao sucesso amoroso. Nesse aspecto, hooks (2021) aponta que a comunicação de massa tende a perpetuar imagens idealizadas de relacionamentos perfeitos, livres de conflito, em que o amor é retratado como destino e não como construção. Essa representação gera um imaginário coletivo que desestimula a autonomia afetiva e reforça a expectativa de que o parceiro — especialmente a mulher — seja responsável pela manutenção emocional da relação, reproduzindo desigualdades de gênero e dinâmicas de poder (hooks, 2021).

Sob essa perspectiva, torna-se evidente que a concepção romântica do amor não se dissocia de suas implicações sociais e políticas. Entre elas, destaca-se a persistência da violência de gênero, que não pode ser entendida como um evento isolado, mas como parte de um sistema de opressões históricas e estruturais. A violência conjugal, com base no apresentado, representa o extremo de um ciclo sustentado por narrativas de submissão e posse que atravessam o campo afetivo.

Embora a promulgação da Lei nº 11.340/2006 (conhecida como Lei Maria da Penha) tenha constituído um marco fundamental no enfrentamento à violência contra a mulher, a permanência de índices elevados de agressões evidencia que a transformação social exige mais do que a existência de dispositivos legais. É necessário compreender como imaginários afetivos e representações culturais continuam legitimando práticas e discursos que sustentam a desigualdade e a violência.

Este estudo busca refletir como o amor romântico, por vezes, torna-se uma justificativa para a (ou sendo a própria) violência contra mulheres cis e trans. Para isso, será realizada uma revisão teórica do tema (Gil, 2008), a partir do conceito de amor, construído socialmente, a relação entre amor, violência e poder, a partir dos estudos de gênero.

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