
Você não é livre se não pode parar: o mito da mulher forte
E quando a força se torna uma prisão? A mulher só é forte se aguentar 10x mais.
A sociedade contemporânea frequentemente exalta a imagem da mulher forte, capaz de suportar adversidades, trabalhar, estudar, cuidar da casa, cuidar dos filhos, cozinhar, e estar presente para o marido. Quando a força se torna uma armadura tão pesada que aprisiona, e a resiliência uma expectativa irreal que impede o reconhecimento da dor e da vulnerabilidade, tudo que é naturalmente esperado de uma mulher se transforma em um fardo silencioso.
Se trata de uma idealização que ignora as pressões sociais e culturais que historicamente empurraram as mulheres para papéis de cuidadoras e suportes emocionais, independentemente de suas próprias necessidades. A capacidade de "aguentar firme" se torna, então, menos uma escolha e mais uma imposição, disfarçada de elogio. A romantização da resiliência feminina tenta mascarar a exaustão, o trauma e a invisibilidade de um sofrimento que é esperado, em vez de acolhido. Ela impede que se olhe para as estruturas que tornam essa resiliência necessária em primeiro lugar, perpetuando ciclos de sobrecarga e negligência das próprias necessidades, tornando tudo algo natural.
Durante muito tempo, o saber dominante (definido por homens) categorizou a mulher como um "outro" em relação ao homem. Frágil, emocional, submissa, voltada para o cuidado e para o espaço doméstico. Essa imagem foi repetida em discursos filosóficos, na medicina , e nas artes, sempre reforçando a ideia de que havia um papel natural e ideal para o feminino. Essas visões construíram um imaginário coletivo que ainda hoje influencia a forma como mulheres são tratadas na sociedade, até mesmo dentro da comunidade feminina. A mulher é colocada em dicotomias limitantes: santa ou prostituta, racional ou histérica, sensível ou fraca. Papéis pré-definidos que limitam a experiência feminina a rótulos restritos.
Um dos aspectos mais cruéis desse processo é o silenciamento feminino, não apenas a exclusão direta da fala e apagamento dos saberes, mas algo tão cotidiano, que grande maioria já sofreu. Se trata do descrédito das emoções, das opiniões e da autoridade das mulheres. Nos dias atuais, em diversos espaços, ser mulher ainda significa ser interrompida, desacreditada ou rotulada como exagerada e emotiva ao expressar dor ou revolta. Afinal, quantas vezes você, mulher, tentou comunicar algo que te machucou ou incomodou, e isso resultou em uma briga, uma discussão?
Há uma cobrança contraditória que acompanha esse silenciamento: espera-se que a mulher seja sensível, mas que não chore em público; que seja compreensiva, mas nunca firme demais; que seja resiliente, mas sem parecer brava. Quando expressa emoção, pode ser taxada de descontrolada. Quando é racional, fria ou assertiva, é vista como insensível ou até arrogante. Dualidade que aprisiona e sufoca.
A expectativa da mulher forte vem da crença que por natureza são fracas. À primeira vista, ele parece positivo, afinal, valoriza a força feminina e a capacidade de enfrentar dificuldades diárias. Mas essa força desumaniza: a mulher forte não pode desabar, não pode pedir ajuda, não pode ser vulnerável. A força, que deveria ser libertadora, se torna uma prisão. E é justamente essa armadilha emocional e simbólica que a música “Estou Nervosa” (Surface Pressure), do filme Encanto (Disney, 2021), coloca em evidência de forma brilhante.
Na canção, acompanhamos o desabafo de Luísa, a irmã mais velha da família Madrigal. Seu dom mágico é a força física, mas sua letra revela que o verdadeiro peso que ela carrega não está nos blocos de pedra, e sim na pressão constante de nunca poder falhar. Logo no início, Luísa assume a imagem que esperam dela: firme, incansável, imbatível. Ela não se permite questionar se o que carrega é pesado demais, porque "se me dão aço, eu piso, eu amasso". Aqui, há uma crítica sutil mas poderosa: o dom se transforma em obrigação. O reconhecimento vem condicionado ao desempenho. Luísa não se sente amada ou vista por quem é, mas pelo que faz.
Essa canção acaba ressoando com a internalização da ideia de que o valor da mulher está em sua utilidade. Não ser “produtiva”, não ser “forte”, não dar conta, é quase um pecado. E quando a personagem expressa sua angústia, como tantas mulheres na vida real, ela não encontra escuta, dizem apenas “pede pra Luísa, ela dá conta”.
A mulher forte é vista como heroína, mas ninguém se pergunta sobre o preço dessa batalha constante. A ansiedade e a exaustão se tornam companhia diária, mas precisam ser escondidas. A música fala de medo, orgulho, raiva, vontade de explodir, sentimentos comuns a muitas mulheres que foram ensinadas a sempre colocar os outros em primeiro lugar.
Mesmo quando tudo está desmoronando, Luísa sente que é sua responsabilidade manter tudo em pé. Isso reflete como a sociedade espera que as mulheres sustentem famílias, lares, relações e ambientes de trabalho sem reclamar, sem cair, sem parar.
No trecho final, ela diz:
“Eu seria tão mais feliz / E tão mais viva / Mais animada, não tão usada / Ou pressionada”
É aqui que a música toca o centro da ferida: a dor de não ser vista como pessoa, e sim como função. A dor de ser apenas “a que resolve”, “a que suporta”, “a que aguenta”. A dor de não poder ser vulnerável. A dor de se perder de si.
“Estou Nervosa” quando colocada na perspectiva da força feminina, se torna um reflexo da dor de mulheres que vivem entre o esgotamento e a cobrança constante. A letra revela como a expectativa pela força feminina, em vez de libertar, aprisiona. A força deixa de ser escolha e se torna imposição. A mulher forte, quando quebra, não tem para onde correr, porque todos ao redor já se apoiavam nela.
Por Sarah Monteiro

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